quarta-feira, 6 de julho de 2011

Por Felipe Prolo e Luciano Carlos Berta Horn

PROPOSTA DE ATIVIDADE:

A proposta é de aplicação de uma aula, abordando uma temática da Sociologia buscando aliar teoria e exemplo da realidade. A idéia é afastar-se de uma abordagem puramente teórica que possa causar estranheza, desinteresse e dificuldades de abstração para alunos que não estão acostumados com o ensino e a linguagem técnica da Sociologia. De outra parte, não se pretende partir e discutir o conceito somente em função de um exemplo que envolva um tema próximo à realidade dos alunos, cujo envolvimento possa resultar em uma confusão entre teoria sociológica e juízos de valor, em um debate de “achismos”.

A proposta teórica da atividade é o conceito de “identidade cultural”, tendo como base um texto de Kathryn Woodward (2008). A autora faz uma exposição de tal conceito a partir de um exemplo simples, envolvendo o processo de diferenciação cultura entre sérvios e croatas, durante conflito separatista na região, a partir do relato de um jornalista que entrevistou um soldado sérvio. Do discurso do soldado, elementos constituintes do padrão de formação de uma identidade cultural são extraídos, discutindo-se também a importância da abordagem sobre este conceito.

A idéia é de centralizar o debate com os alunos em um exemplo de suas realidades, mas mesmo assim tem-se a intenção de trazer uma temática que lhes é familiar para exercitar a compreensão do conceito. Sendo assim, optou-se por buscar um exercício comparativo: um exemplo distante e não familiar (conflito entre sérvios e croatas) e um exemplo de formação de identidade cultural entre jovens brasileiros.

A aplicação da atividade, então, ocorrerá da seguinte forma: se partirá do exemplo dado pela autora para extrair os principais elementos para o entendimento do que é uma identidade cultural, onde entende-se que este tipo de identidade é:

- relacional: constrói-se na relação entre pessoas, onde o indivíduo considera-se a si mesmo em relação aos outros e não de forma independente desta dimensão. É um exercício em que o indivíduo se reconhece também ao ser reconhecido por outros de uma forma determinada. Nisto, diferencia-se identidade e subjetividade de um indivíduo.

- baseada na diferença: em sua construção relacional, os indivíduos formam suas identidades a partir da forma como diferenciam-se de outros indivíduos ou grupos. Definir o que se é na sociedade também é definir o que não se é.

- ao ser baseada na relação e na diferença, é resultado de um sistema de classificação.

- simbólica: São atribuídos significados a elementos da realidade em que, dependendo da relação ou não com tais objetos, conferem características sociais aos indivíduos.

- social: as distintas formas de reconhecimento em relação ao outro tem influência nas relações entre grupos sociais, em nível loca, nacional e global.

- não é fixa: sua construção modifica-se no processo histórico. Por exemplo, a diferença entre o que é considerado socialmente ser mulher entre o presente e o passado.

- é plural: a identidade não é unificada. Ao mesmo tempo em que indivíduos consideram características distintas de outros indivíduos, consideram também semelhanças, o que pode lhe conferir certo caráter “contraditório”. Um soldado sérvio é homem, militar, europeu, vive nos Balcãs, etc. Certas classificações são mais destacadas do que outras ao assumir uma identidade, mas todas podem “vir à tona” no processo de relações sociais.

A partir desta abordagem, será mostrado um pequeno vídeo (escolhido em função do tempo de aula e de acordo com o que foi possível encontrar na internet), que trata da questão das “tribos urbanas”. Tais “tribos” em questão seriam os diferentes grupos de jovens que classificam-se, identificam-se relacionam-se de acordo com seus visuais e gostos musicais. Após o vídeo, será feito debate, em que o exercício é o de aliar as similaridades entre os dois exemplos distintos expostos, bem como identificar e discutir a relação dos elementos levantados sobre o conceito de identidade com as maneiras através dos quais os jovens do vídeo posicionam-se e identificam-se.

Referências:

- WOODWARD, Katrhyn. In: SILVA, Tomas Tadeu da (org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 8 ed. Petrópolis, RJ. Vozes, 2008.

- <HTTP://www.youtube.com/watch?v=Av7G-tDgwZY&feature=related> (extraído do programa televisivo “A LIGA”, apresentado em 06/07/2010).

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APLICAÇÃO:

A aula foi dada para uma turma de estudantes de semi-intensivo do cursinho pré-vestibular popular ONGEP, em Porto Alegre. Apesar de não ser conteúdo que consta nos processos vestibulares, a organização do cursinho considera pertinente o ensino de Sociologia para seus estudantes, como apoio tanto para a própria prova (por exemplo, a redação) como em uma formação em si, pretendendo-se ir além do vestibular. Foi a segunda aula de Sociologia que tiveram no curso, sendo que não tiveram essa disciplina na escola. A aula em questão foi dada após ter sido abordado com os alunos a questão “o que é Sociologia e por que é uma ciência?” (obviamente, questão não encerrada logo na primeira aula).

A turma era formada por cerca de 15 alunos, em grande maioria jovens. Cerca de metade deles fizeram intervenções, com perguntas, opiniões e reflexões sobre o que havia sido apresentado. Os apontamentos não se iniciaram somente ao ser apresentado o vídeo que envolvia a temática de juventudes, mas já no exemplo da autora em que nos baseamos. Após a exposição do exemplo, foi questionado aos alunos “como esse soldado sérvio se identifica?”. A partir de apontamentos dos alunos, foram apontados no quadro os aspectos extraídos, relacionados aos elementos propostos pelo texto. O vídeo, que pensou-se em mostrar pouco depois da exposição do exemplo da autora e da extração dos elementos, ocorreu somente na metade da aula.

Pode-se dizer que o tempo de aula foi insuficiente para passar o conteúdo. Mesmo que se considere identidade cultural um tema amplo, foi percebido que determinados aspectos não ficaram bem desenvolvidos, em parte. A questão dos sistemas classificatórios precisaria ser mais explorada, por dois motivos. O primeiro foi o fato da forma como os julgamentos de valor por vezes encobriram os aspectos trabalhados sobre as formas através das quais uma identidade é formada. O que já era esperado, por serem termos que tem significados atribuídos também no senso comum, e se pode esperar que justamente estes significados sejam aqueles com os quais os alunos tiveram o contato, e não os de uma área de conhecimento que nunca estudaram. A segunda foi o fato de se ter percebido que houve, em certa medida, uma confusão entre diferenciação e discriminação. Viu-se que há a necessidade de trabalhar melhor, e trazendo, do exemplo, para o âmbito mais abstrato, como a diferenciação pode resultar em discriminação, mas que ambas as noções não são equivalentes.

Mesmo considerando o tempo insuficiente, a experiência foi considerada válida. Apesar de se ter visto certas confusões sobre o entendimento do conteúdo, houve aprendizado, como quando, ao se diferenciar subjetividade de identidade, o que o indivíduo pensa de si e como se posiciona no mundo, um aluno deu um exemplo “sim, um “metaleiro”(fã de música estilo heavy metal), que trabalha em um supermercado, não vai agir e se vestir como um “metaleiro” no trabalho”. A noção de que agir no mundo envolve posicionar-se em relação aos outros, que é algo constituinte da vida social.

Um ponto que chamou a atenção foi a questão da linguagem. Procurou-se não utilizar uma linguagem, por exemplo, como a utilizada para redigir este texto. Mesmo assim, ao lançar um exemplo onde, para diferenciar a subjetividade e identidade, perguntei aos alunos como eles consideravam que o professor ali presente era visto na sociedade, a questão da forma como se falava foi um ponto levantado (mesmo tendo sido feito uso de gírias em alguns momentos). Viu-se algo que já se pensava, e um exercício a ser feito: não adotar a linguagem do aluno, nem mesmo usar uma distante para lhe “servir de exemplo”, mas buscar uma mediação entre uma linguagem técnica e uma linguagem cotidiana, frisando as diferenças conceituais.

No mais, houve uma boa participação e uma boa acolhida por parte dos alunos, o que facilitou bastante, ainda mais dado o fato de ter sido a primeira experiência docente aplicada. Após a aplicação, por não se ter tido todos os resultados esperados, houve uma mistura de frustração com motivação: a vontade de dar aquela aula novamente.

Um comentário:

  1. Felipe, esta experiência foi muito importante, sobretudo, porque analisas com propriedade o modo como o aluno se expressa e se aquilo mostra ou não o entendimento conceitual. Tens razão: é melhor mediar a linguagem coloquial com a linguagem acadêmica, salientando suas diferenças e propriedades conceituais. Não se pode reproduzir os modos pelos quais os alunos operam simplesmente para "colocar-se próximo". Seria o mesmo que roubar-lhe a chance de crescer, aprimorar-se porque se depara com algo que lhe exige isso. Nosso maior desafio é criar algo que mobilize os sujeitos a pensar, esclarecer-se e esclarecer o que pensa aos demais. Com a ajuda de todos se pode criar novos posicionamentos de sujeito frente ao mundo, quiçá, mais sensível.

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